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18.2.11
perspectivas a considerar - IV
O sonho americano não é na Dinamarca
Ouvi, na semana passada, em Bruxelas, Richard Wilkinson, co-autor de "O Espírito da Igualdade", um livro que deu muito que falar no debate eleitoral das últimas eleições britânicas. Já aqui escrevi sobre o assunto: A ideia de que basta continuar a garantir o enriquecimento dos povos para conseguir o melhor para os cidadãos não é confirmada nos países mais desenvolvidos. Nas sociedades de abundância, é a distribuição equitativa da riqueza que garante o bem comum. Não apenas dos pobres, mas de todos. Aconselho a ler o livro.
A dada altura, Wilkinson mostrou à assistência um quadro sobre mobilidade social. Recolheu-se a situação social, económica e cultural de adultos. E, trinta anos depois, foi-se verificar como estavam os seus filhos. As estatísticas desmentem uma verdade feita: que os Estados Unidos são um país onde há mais mobilidade social. Pelo contrário, estão num dos piores lugares, entre os países desenvolvidos estudados. Em primeiro, para não variar, estão os escandinavos. Wilkinson lançou a provocação: "o sonho americano é na Dinamarca".
Errado. O "sonho americano" nada tem a ver com a mobibilidade social no conjunto da população ou com a igualdade de condições que tanto espantou Tocqueville, vindo de uma Europa ainda marcada pelo Antigo Regime.Tem a ver com a possibilidade de alguém, isoladamente, passar de pobre a milionário. Ou seja, tem a ver com uma possibilidade num milhão, não com a justiça geral de não estarmos quase todos condenados pela condição do nosso nascimento.
A um inquérito sobre qual o modelo de sociedade que mais apreciava, contou Wilkinson, a maioria dos americanos respondeu que era o escandinavo. Mas, na realidade, é o mito do "self-made man" que alimenta a ética política, social e económica americana e cada vez mais a europeia. Na verdade, imagino que a maioria dos americanos prefira ter uma ínfima possibilidade de ser cinco, dez, vinte ou mil vezes mais rico do que os seus concidadãos do que a alta probabilidade de viverem todos mais ou menos bem, mas sem grandes diferenças. Porquê? Porque é essa enorme superioridade que dá poder sobre os outros e que alimenta a autoestima de quem vive desse poder. A igualdade dá qualidade de vida a quase todos mas é muito pouco sexy. Porque ela não prova aos outros que nós somos melhores do que eles. Ela apenas prova que a sociedade em que vivemos é melhor do que as mais desiguais. Ela diz muito de todos nós, como comunidade, mas não diz nada de cada um de nós, como indivíduos.
-- por Daniel Oliveira, in Expresso.pt, 17.02.2011
4.2.11
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