Perceber a Alemanha, sff
As pessoas falam da Alemanha ("Então não ajudas os gregos e os tugas, ó Merkel?") sem consideração pelo eleitor/contribuinte alemão, como se fosse possível construir o euro contra a vontade dos alemães.
I. Uma das coisas mais irritantes desta "polémica" sobre a Alemanha ("polémica" que já consagrou a - suposta - burrice insanável de Angela Merkel) é a seguinte: a malta esquece que a Alemanha é uma democracia. Isto sucede porque os debates estão dominados pela linguagem técnica do 'economês' . Dizem "ah, Angela Merkel demorou demasiado tempo a ajudar a Grécia". Pois, é que 85% dos alemães estava contra essa ajuda. Angela Merkel tinha de gerir este ponto com pinças. E o mesmo pode ser dito em relação à Irlanda e Portugal. A ajuda - se for necessária - chegará, mas temos de ter a noção de que Angela Merkel tem de gerir os medos dos eleitores e contribuintes alemães, que têm razões de sobra para estarem fartos de gregos e portugueses. Um alemão pensa assim: "mas eu vou dar dinheiro àqueles tipos para eles continuarem a fingir que são ricos?!". E sabem que mais? Os alemães têm todo o direito a pensar assim.
II. É preciso pensar estas coisas em termos políticos, e não apenas em termos económicos: a Alemanha não é apenas uma economia que tem de financiar os outros Estados por imperativos técnicos. A Alemanha é um actor político (a tal democracia) e Berlim tem de justificar politicamente os seus actos ao eleitorado alemão. A ajuda à Grécia e Portugal não pode ser uma imposição técnica. Tem de ser um acto político, com exigências políticas: sim, os alemães ajudam financeiramente, mas, em troca, querem reformas que disciplinem a governação dos estados do sul. E ainda bem que é assim. Por duas razões: (1) não se pode construir o euro contra a vontade dos alemães. Se o voto anti-europeu (que existe noutros países) chega à Alemanha, meus amigos, temos o caldo entornado. (2) Os povos do sul têm de ser confrontados com a realidade, e não podem continuar a ganhar 100 para, depois, gastar 150.
-- Henrique Raposo in Expresso.pt, 18.11.2010
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