17.3.11

'Existe vontade de mudar mas parecem faltar os protagonistas.'



O desastre de Sócrates, o desastre de Passos e a ausência dos outros



Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
8:00 Terça feira, 15 de Março de 2011

A razão pela qual José Sócrates, não tendo maioria no parlamento, resolveu não consultar o PSD para negociar mais medidas de austeridade, já todos percebemos: fazer-lhe mais um xeque-mate. Se o Passos diz que sim, fica colado a este desastre e não terá como chumbar o próximo orçamento. Se Passos diz que não, provoca a crise política no exacto momento em que a União irá garantir um apoio a Portugal e com toda a Europa contra ele. Como se vê, as prioridades de José Sócrates continuam a ser as de sempre: sobreviver no poder. Depois de não consultar a oposição, faz chantagem com a oposição. O interesse do País? Um pormenor.
O PSD, por seu lado, faz jogo duplo. Na Europa, o PPE, onde está integrado, defende este tipo de soluções. Cá dentro, a direita tem um discurso esquizofrénico. Ao mesmo tempo que desfaz as propostas do governo avança com propostas para o País que não só vão no mesmo caminho como o pioram um pouco. Mais: foi Passos Coelho que disse que estava preparado para governar com o FMI. Governar com o FMI seria, mais coisa menos coisa, isto mesmo. Estamos por isso preparados para o número do costume: quando chegar ao poder dirá que a coisa afinal está mesmo negra, fará o mesmo ou ainda pior do que Sócrates, e garantirá que a culpa é do seu antecessor. Já vimos tantas vezes este filme que só se espanta quem gosta de se enganar a si próprio.
Sócrates poderá dizer que teve uma vitória esta semana: este PEC poderá garantir apoio com taxas de juro um pouco mais baixas sem a vinda do FMI e do FEEF. Acontece que este PEC - com o que ainda poderá vir - começa a assemelhar-se demasiado ao que o FMI e o FEEF exigiriam. Enterrará a economia sem apelo nem agravo. A única diferença é que Sócrates, assim, talvez consiga ficar mais uns meses no poder.
E Portugal está neste dilema político: a queda do governo impede este acordo desastroso e garante a vinda, mais tarde ou mais cedo, do FMI com uma receita semelhante. A Sócrates com a receita para o suicídio da nossa economia sucederá Passos Coelho com o mesmíssimo repasto e mais um aditivo motivado por convicções ideológicas.
Excelente seria que a esquerda à esquerda de Sócrates fosse uma alternativa de poder. Com um programa deruptura credível, propostas exequíveis no actual quadro económico, que pelo menos distribuíssem de forma decente os sacrifícios, e que tivesse um discurso europeu de alguma coragem, o que passaria por uma aliança política estratégica com as economias periféricas que travasse o golpe de Estado que a senhora Merkel está a levar a cabo na União. Uma esquerda que dissesse que quer governar. Amanhã. Mesmo que não seja para mudar o Mundo ou para aplicar todo o seu programa. Mas para evitar o suicídio social, económico e político deste País. Basta ver o clima social e de protesto para perceber que há uma base eleitoral (ela já valia bastante nas últimas eleições e hoje, fosse outra a estratégia, poderia valer muito mais) para uma alternativa ao discurso da inevitabilidade
No entanto, no interior do PS, todos parecem esperar que Sócrates caia de maduro. E não me ocorre ninguém credível que tenha um discurso coerente de oposição ao que foi esta governação desastrosa. E a esquerda à esquerda do PS parece estar viciada em cavalgar os protestos sem nunca querer chegar à meta, sonhando com revoluções imaginárias que nem os nossos netos verão. É pena. Existe vontade de mudar mas parecem faltar os protagonistas. E assim, o desencanto com a política e com os partidos continuará a tomar o lugar do que poderia ser o crescimento de uma verdadeira alternativa política. Corajosa, de ruptura, mas realista e credível.

-- in Expresso.pt, 15.03.2011


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