21.3.11


"No dia 21 de Março, comemora-se o Dia Mundial da Poesia, o Dia Mundial da Árvore e o Dia Mundial da Floresta. A Biblioteca associou estas efemérides, e seleccionou poemas de autores portugueses que evocam a relação do homem com a natureza. Aproveitando o impulso de renovação da Primavera, escolhemos poemas que, ao sugerir ambientes e paisagens, alteram estados de alma."


Floriram por engano as rosas bravas
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor! -, do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Fonógrafo
Vai declamando um cómico defunto.
Uma plateia ri,perdidamente,
Do bom jarreta... E há um odor no ambiente
A cripta e o pó,- do anacrónico assunto.
Muda o registo,eis uma barcarola:
Lírios, lírios, águas do rio,a lua.
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul,- extática corola.
Muda outra vez: os gorgeios,estribilhos
Dum clarim de oiro - o cheiro dos junquilhos,
Vívido e agro!- tocando a alvorada...
Cessou. E,amorosa,a alma das cornetas
Quebra-se agora orvalhada e velada,
Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas!

Imagem
Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.
Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.
São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Primavera
As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
- Sangue feroz do tempo possuído.

As rosas
Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Os Girassóis
Assim fremente e nua,
a luz só pode ser dos girassóis.
Estou tão orgulhoso
por esta flor difícil ter entrado pela casa.
É talvez o último verão,
tão feito de abandono é meu desejo.
Mas estou orgulhoso dos girassóis.
Como se fora seu irmão.

A uma cerejeira em flor
Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.
Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, aluz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração duma cereja.


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2 comentários:

  1. faltou este

    "SÍSIFO

    Recomeça....
    Se puderes
    Sem angústia
    E sem pressa.
    E os passos que deres,
    Nesse caminho duro
    Do futuro
    Dá-os em liberdade.
    Enquanto não alcances
    Não descanses.
    De nenhum fruto queiras só metade.

    E, nunca saciado,
    Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
    Sempre a sonhar e vendo
    O logro da aventura.
    És homem, não te esqueças!
    Só é tua a loucura
    Onde, com lucidez, te reconheças...

    Miguel Torga"

    ;)

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